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O tempo de defesa virou negativo

A janela entre uma vulnerabilidade ser divulgada e ser explorada encolheu de 63 dias para menos sete. “Menos sete” não é força de expressão: em média, o ataque agora chega antes do aviso. Entenda o que mudou, qual é o papel real da IA ofensiva — separando o dado do hype — e o que isso muda na sua defesa.

O que é Time-to-Exploit

Toda vulnerabilidade tem uma linha do tempo. Ela é descoberta, é divulgada (num CVE, num aviso do fornecedor), ganha uma correção, e em algum momento passa a ser explorada por atacantes de verdade. O Time-to-Exploit (TTE) mede uma janela específica dentro dessa linha: quantos dias se passam entre a divulgação da falha e a primeira exploração observada.

Por muito tempo, esse número foi o oxigênio do defensor. Se você tinha 60 dias entre “a falha virou pública” e “alguém a está usando”, tinha 60 dias para inventariar seus sistemas, priorizar, testar o patch e implantar sem quebrar a produção. O TTE é, na prática, o tamanho da sua vantagem. E ele encolheu de forma brutal.

A janela não encolheu — ela inverteu

Os dados mais citados do setor vêm da Mandiant (Google) — uma firma de resposta a incidentes, não uma empresa que vende IA. Reunindo os estudos “Time-to-Exploit Trends” e o relatório M-Trends 2026, a trajetória do TTE médio é a seguinte:

Time-to-Exploit médio — dias entre divulgação e exploração

Quanto menor, menos tempo de reação. Abaixo de zero, o ataque precede o aviso.

TTE médio (average) da Mandiant/Google Threat Intelligence: 63 dias em 2018-19, 44 em 2020, 32 em 2021-22, 5 em 2023, cruzando o zero em 2024 e chegando a −7 dias em 2025 (dado do M-Trends 2026). São todas médias — a Mandiant não publica a mediana; e os períodos iniciais são agrupados como no relatório. Fontes: GTIG “Time-to-Exploit Trends” e M-Trends 2026.

Repare no eixo: o ponto de 2025 está abaixo de zero. Na prática, a exploração passou a acontecer, em média, antes de a correção estar disponível — nas palavras do próprio M-Trends, “a exploração ocorre rotineiramente antes de o patch ser lançado”. O defensor não perdeu tempo de reação: perdeu a largada.

“Negativo” = o ataque vem primeiro

Vale internalizar o que um TTE negativo significa na prática. Não é que os atacantes ficaram “um pouco mais rápidos”. É que a ordem dos eventos mudou: o exploit circula, os sistemas são comprometidos, e só depois a falha ganha um aviso público e um patch. Quando o seu time de TI recebe o alerta para atualizar, parte do estrago já pode ter começado.

Por que a média foi parar abaixo de zero? Porque uma parcela crescente das falhas passou a ser explorada como zero-day — dias, às vezes semanas, antes de existir qualquer aviso. Em 2023, a Mandiant observou que 70% das vulnerabilidades exploradas já eram zero-day. Como o indicador é uma média, basta essa cauda de casos fortemente negativos para puxar o número inteiro para o campo negativo — mesmo que boa parte das falhas ainda seja explorada só depois do patch.

E não é só o TTE. O mesmo relatório mostra o quanto a máquina de exploração ficou industrial no que chama de hand-off — o tempo entre um invasor conseguir o acesso inicial e repassá-lo a um segundo grupo (que monetiza, implanta ransomware, etc.):

63d → −7d
Time-to-Exploit médio, de 2018-19 a 2025 (Mandiant / Google Threat Intelligence)
22 s
tempo entre acesso inicial e hand-off para outro grupo em 2025 — eram 8+ horas em 2022
dos CVEs de 2024 (23,6%) foram explorados no dia da divulgação — ou antes (VulnCheck)

Oito horas para vinte e dois segundos. Não existe processo humano de resposta que opere nessa escala reagindo depois do fato. A conta só fecha se a sua postura de segurança já estiver de pé antes do incidente.

Por que agora: a IA ofensiva — e o que é hype

O que empurrou a curva para baixo de zero? Parte da resposta é a entrada de atacantes de IA autônomos na equação. O nome mais associado a essa virada é o de Oege de Moor — criador do CodeQL (na Semmle, adquirida pelo GitHub) e fundador da XBOW, uma startup de pentest conduzido por IA.

Aqui vale um cuidado — e é a posição da TreeSec: boa parte dos números mais citados sobre IA ofensiva vem de quem vende IA ofensiva. A XBOW divulgou um benchmark próprio em que, num conjunto de 104 desafios, seu sistema atingiu a mesma cobertura de um pentester experiente — ambos resolveram cerca de 85% dos desafios — porém em uma fração do tempo: 28 minutos contra 40 horas. Lido com rigor, o resultado não é “a IA superou o humano”: é empate em cobertura, vantagem em velocidade, num ambiente de laboratório e num teste publicado pela própria empresa. Impressionante — mas é marketing de parte interessada, não avaliação independente.

O que é verificável por terceiros: a XBOW chegou ao 1º lugar do ranking do HackerOne nos EUA em cerca de três meses (com os achados revisados por humanos antes de submeter). Ou seja, a capacidade é real e não deve ser subestimada — ela só não é a ficção científica que a manchete sugere.

De Moor coloca um prazo: “temos de 6 a 9 meses antes que os modelos de peso aberto alcancem. Esse é o seu deadline.” É um alerta que merece atenção — e convém lembrar de onde ele vem: de quem está construindo (e capitalizando) exatamente essa capacidade. O ponto é legítimo; o senso de urgência tem um interessado.

E a própria Mandiant puxa o freio de mão do hype: “não consideramos 2025 o ano em que as invasões foram resultado direto de IA; a grande maioria ainda decorre de falhas humanas e sistêmicas fundamentais.” Hoje a IA é, sobretudo, um acelerador do ciclo de ataque — não um substituto do atacante humano. Mas acelerador é exatamente o que colapsa uma janela de defesa.

Onde a TreeSec fica nisso: nós usamos ferramentas com IA no dia a dia — elas aceleram reconhecimento, triagem e correlação. Mas o julgamento sobre lógica de negócio e impacto real continua humano e manual. E é justamente por trabalharmos com essas ferramentas que sabemos separar a capacidade real do exagero de quem precisa impressionar um investidor.

O mercado reagiu — e ao contrário

A tese tem um lado curioso. Em fevereiro de 2026, quando a Anthropic apresentou uma prévia de pesquisa de um recurso capaz de varrer código em busca de vulnerabilidades (o Claude Code Security), as ações das gigantes de cibersegurança despencaram num único dia:

EmpresaQueda no dia
CrowdStrike~ −10%
Zscaler~ −10%
Tenable~ −12%
Netskope~ −12%

Movimento de um pregão, na esteira do anúncio do recurso de IA da Anthropic. Fonte: CNBC (23/fev/2026).

Há uma ironia aqui. O investidor leu “IA acha bugs” como “o produto das empresas de segurança vai virar commodity” e vendeu. Mas o CEO da CrowdStrike, George Kurtz, resumiu o contra-argumento: “uma IA que escaneia código não substitui a plataforma nem o seu programa de segurança”. E analistas do Barclays classificaram a reação como exagerada — a ferramenta não substitui as ofertas centrais desses fornecedores.

A leitura da TreeSec: diante de um mundo onde o ataque ficou mais rápido e mais barato, a resposta racional é investir mais em defesa, não menos. Se a mesma IA que derruba as ações também acha falhas em minutos, a pergunta que importa não é “quem vai ser substituído” — é “a sua aplicação aguenta esse novo ritmo de ataque?”.

A consequência: o pentest anual de carimbo perdeu o sentido

Junte as peças. O TTE é negativo. O hand-off leva segundos. A exploração é automatizável e barata. Nesse cenário, qual é a validade de um único teste de segurança feito uma vez por ano, para bater um carimbo de compliance?

Praticamente nenhuma. Um pentest anual fotografa a sua segurança num instante — e no dia seguinte você sobe um deploy, adiciona uma dependência, muda uma regra de firewall, e a foto envelhece. Contra uma janela de exploração medida em dias (ou negativa), “seguro em janeiro” não diz nada sobre “seguro em julho”.

Segurança deixou de ser um evento e virou um processo. Você não valida sua defesa no ritmo do calendário fiscal — valida no ritmo de quem ataca.

Na prática, isso significa combinar teste ofensivo pontual e aprofundado (para achar a lógica de negócio que scanner não pega) com validação contínua: reavaliar a superfície de ataque a cada mudança relevante, monitorar exposições novas e retestar o que foi corrigido. É a diferença entre saber que você estava seguro e saber que você está.


O tempo de reação virou negativo para quem espera o aviso chegar. Para quem se antecipa — testando a própria defesa no ritmo do ataque — ele ainda existe. É esse o trabalho da TreeSec.

Sua defesa acompanha o ritmo do ataque?

Validação ofensiva contínua: encontramos e ajudamos a corrigir suas falhas no ritmo de quem ataca — não uma vez por ano.

Fontes